Como classificar François Ozon sem recorrer à ideia de um realizador de imensas luas que orbitam no seu ser? Talvez “Regarde la Mer” (1997) seja uma das primeiras evidências dessa multiplicidade: uma média-metragem que ocupa lugar de longa, não apenas pelos seus 52 minutos, mas pela forma como instala um universo de tensão (e tesão!), desejo e violência latente. Há nela um thriller com rasgos hanekianos, centrado numa mulher (Sasha Hails, escritora e encenadora) confrontada com a sua nova realidade maternal, isolada com a sua bebé numa casa de praia (um anos antes da curta, também balnear, “Une robe d’été”, será prequela?), até à chegada de uma errante (Marina de Van, actriz e futura autora de um certo cinema bastante singular na sua provocação) que lhe solicita abrigo. A partir desse instante, Ozon começa a corroer silenciosamente as garantias do espaço doméstico, da maternidade, da própria ideia de hospitalidade e até mesmo da família enquanto fortaleza social.

Saído da La Fémis e frequentemente apontado como um dos seus nomes maiores, o realizador revelou desde cedo um raro instinto para a escrita, sendo essa a grande ligação da sua carreira. O argumento é, por norma, um mecanismo de deslocação, um dispositivo para vacilar as convenções sociais e psicológicas. Muito antes de exemplares fortes dessa conduta como “Swimming Pool” (2003) ou “Dans la Maison” (2012), onde transformaria a ficção dentro da ficção e a incerteza da verdade em motores dramáticos, “Regarde la Mer” já expunha essa capacidade de manipular o espectador através de pequenos desvios, silêncios e gestos aparentemente banais, mesmo que não faça a escrita como artifício explícito. Contudo, a estadia da errante irá preencher o imaginário de Sasha Hails, através do aprumo, da contemplação do seu corpo e a fantasia aí gerada, fruto do seu íntimo, mesmo sem o exercício da escrita, a ficção a ser formada. Ou por palavras, a expectativa vira uma forma de ficção. 

Brincando a esses malabarismo do desejo culminado (e repreendido, leia-se), o ambiente igualmente permanece em constante estado de alerta, mesmo quando a protagonista parece seduzida pelo rodopio trazido pela visitante, nunca é permitido que o filme se entregue ao conforto dessa cumplicidade. A errante não possui origem nem destino; é uma figura que entra no enquadramento para desorganizar códigos, inverter hierarquias e revelar as fissuras de uma burguesia que o realizador sempre observou com um olhar ácido, incapaz de se deixar encantar pelos seus rituais. Há também uma dimensão profundamente física neste filme, essa relação entre sexo, (trans)agressão que atravessará grande parte da obra de Ozon. O sexo, no seu cinema, raramente é uma questão de erotismo; é desconstrução (“Jeune & Jolie”, 2013), poder (“L’Amant double”, 2017), invasão (“Swimming Pool”), e outras vezes aniquilação. Em “Regarde la Mer“, essa pulsão concentra-se numa extraordinária sequência passada num bosque dunar, onde o desejo, há muito fomentado, finalmente se consuma em breves instantes. É uma cena suja, marginal, quase clandestina, que hoje se revela como um inesperado elo perdido entre João Pedro Rodrigues e os desconhecidos fluviais de Alain Guiraudie.

A força do filme reside precisamente nessa falsa simplicidade, Ozon economiza explicações, deixa que o mal-estar se instale através da duração, dos corpos e da ocupação do espaço, um thriller nunca explode por completo; apenas infiltra-se. A maternidade torna-se vulnerabilidade, a casa transforma-se num território ocupado e a presença da visitante adquire uma qualidade fantasmática, a tal materialização de um desejo reprimido cujas consequências serão macabras.

Visto hoje, “Regarde la Mer” impressiona pela maturidade precoce, mais do contestar que em matérias autorias é nas primeiras obras que concentramos e codificamos todo o genoma do realizador. Antes dos seus altos voos, dos jogos meta-narrativos ou das grandes arquitecturas de “8 Femme” (2002) e “Dans al Maison”, já estavam aqui as obsessões que definiriam o seu cinema: a instabilidade das identidades, o prazer como força desestabilizadora, a crueldade escondida sob a superfície burguesa e essa capacidade de transformar o quotidiano num campo de batalha emocional. Revela-se aqui um realizador, talvez ainda sem todas as suas luas, mas já consciente da órbita que haveria de seguir.

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